Não vou contar meus sonhos,
esperanças que não hei de conquistar.
O que cantar, o farei com palavras simples,
as mesmas que usamos, as impactantes,
que gritam dentro quando emanadas.
Não contarei mortes, assassinatos,
venda de entorpecentes ou crimes desumanos.
Não contarei sobre segredos universais, desenganos.
Livrarei meus poemas do gesto mecânico
do corpo enfarado,
Inútil vez em que se canta ensimesmado
o que não é de dentro.
Não insinuarei sobre os animais,
nem divagarei filosófico-platonicamente
sobre as revoluções que tocam o corpo ou a mente.
Mas falarei das flores!
Não por ficar bem em poesias ou ser reduto do amor,
mas pela vida serena que levam.
Não contarei sobre políticos corruptos,
armas de destruição em massa ou conspirações várias.
A conspiração é a mente,
é o carrasco andando na rua,
a moça que ri e se furta,
as nuvens e o eletro-carro,
tua conta no banco ou o meu dia claro,
no teu gozo, na tua operação de apendicite.
Mas não contarei!
Não falarei que vi lobisomens,
querubins ou alienígenas
vulto preto na encruzilhada
e a natureza de sua origem.
Algo tenta escapar aos olhos.
Percebes de soslaio?
Mas não conte!
Como eu não falarei do ópio em minhas veias,
nem pregarei a virtude humana frente ao mundo
Que me devora.
Não cantarei o tempo.
O passado, o presente e o futuro
são emergentes na cavidade do espaço
Em que nos destruímos.
Não cantarei o amor presente,
ou o passado, talvez cantar incerto o futuro.
Cantarei o amor-consistência, fundamento,
maquinismo indecifrável, sim eu cantarei!
Não cantarei as mulheres que tive
e não dei valor.
Tão sublimes para uma exposição superficial.
Tentativazinha de lirismo chulo.
Não indagarei sobre guerras,
partículas subatômicas ou a natureza da luz,
A sustentabilidade no cabide de roupas?
Exclamarei as rosas, suspirarei rios e florestas,
Mas não pregarei, hipócrita, o ambientalismo no garfo.
Denunciarei os corruptos?
Apontarei os delatores?
Serei firme? Forte?
Zombarei da falsa poesia?
Do homem feio?
Desculpe meu bem,
Não contarei!
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